Corpos em Movimento 2026
A dor tem cor. A psicanálise não tem dono.
VII Jornada Internacional de Psicanálise, Educação e Cultura
25/11/2026 - 28/11/2026 · Online (25 a 27) e presencial na ABI (28) · Evento gratuito
Corpos em Movimento 2026 nasce do encontro entre duas perguntas que atravessam tempos, geografias e regimes de autorização: quem pode exercer a psicanálise e que dor a psicanálise está disposta a escutar? Ao celebrar criticamente os cem anos do texto freudiano Por uma psicanálise leiga e homenagear Vilma Piedade, autora do conceito de Dororidade, a VII Jornada Internacional de Psicanálise, Educação e Cultura coloca em debate a formação do analista, a autoria intelectual negra, a mercantilização da clínica e o direito social à escuta.
Em 1926, Freud interveio contra o monopólio médico sobre a prática psicanalítica. Cem anos depois, a questão retorna atravessada pelas desigualdades brasileiras: quem pode formar-se, quem autoriza o analista, quem controla a transmissão, quem consegue pagar pela escuta e quem lucra com a transformação do sofrimento em produto? A análise leiga reivindica autonomia diante das corporações profissionais; ela exige formação rigorosa, análise pessoal, estudo, supervisão e responsabilidade ética.
Vilma Piedade desloca essa pergunta para dentro da própria escuta. Dororidade nomeia uma dor histórica e localizada, produzida no cruzamento entre racismo, machismo, classe e território. Sua elaboração confronta a universalidade branca que transforma uma experiência particular em medida de todas as outras. Mulheres negras deixam de aparecer como objetos de pesquisa, testemunhas de sofrimento ou exemplos clínicos e ocupam o lugar de produtoras de conceito, linguagem e interpretação do mundo.
Síntese curatorial
Quem pode escutar a dor? une os dois eixos da Jornada. O verbo escutar convoca a clínica e sua responsabilidade; a pergunta quem pode expõe as disputas de autorização presentes na psicanálise leiga; a dor coloca Dororidade no centro e impede que raça, gênero, classe e território sejam tratados como exterioridades da vida psíquica.
A escolha de 25 de novembro para a abertura constitui uma decisão curatorial. A data marca o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e inaugura os dezesseis dias de ativismo contra a violência de gênero. Corpos em Movimento 2026 começa, portanto, sob o signo da denúncia, da memória e da responsabilidade pública. A Jornada afirma desde sua primeira fala que a violência não se distribui de maneira igual e que o racismo acrescenta uma camada histórica de dor à vida das mulheres negras.
O 25 de novembro é o centro simbólico e político da abertura. Ele organiza a primeira conferência, as mesas de comunicação e a declaração institucional dos fundadores do CPAPEC. Assim, Dororidade atravessa o primeiro dia inteiro e prepara o percurso que levará, no sábado, à homenagem pública a Vilma Piedade.
25 de novembro: a dor tem cor e a violência não será recalcada
Começamos esta Jornada no dia 25 de novembro. O Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres atravessa esta abertura como denúncia e compromisso. A violência não chega igualmente a todos os corpos. Quando encontra mulheres negras, traz consigo a memória da escravização, o racismo institucional, a precarização do trabalho, o abandono territorial e a autorização cotidiana para ferir, silenciar e matar.
Vilma Piedade deu nome a esse excesso histórico de dor. Dororidade faz a cor entrar naquilo que o universal tentou apresentar como sofrimento sem endereço. Ao pronunciarmos essa palavra, recusamos uma psicanálise que escuta o íntimo e recalca o mundo. O inconsciente não vive fora da história, e nenhuma clínica permanece ética quando transforma raça, gênero e classe em ruído exterior à fala.
Abrimos Corpos em Movimento 2026 perguntando quem pode escutar a dor, com que formação, posição e responsabilidade. Iniciamos em defesa de uma psicanálise leiga, rigorosa e socialmente comprometida; uma psicanálise sem donos, sem monopólios e sem balcões onde a dor se converta em mercadoria. Que estes quatro dias façam da escuta um ato de responsabilidade com os corpos que a história ensinou o mundo a não ouvir.
Declaração de abertura — leitura pelos fundadores do CPAPEC
O texto de Freud foi escrito no contexto do processo movido contra Theodor Reik, psicanalista não médico acusado de exercício ilegal da medicina. Sua intervenção ultrapassou a defesa individual de Reik: Freud afirmou a especificidade da psicanálise e recusou sua submissão automática ao saber médico. O centenário devolve à Jornada uma pergunta ainda aberta: o que qualifica um analista?
Defender a psicanálise leiga exige combater duas capturas. A primeira vem dos monopólios profissionais que pretendem decidir, de fora do campo, quem possui autorização para escutar. A segunda vem do mercado que transforma formação em produto acelerado, certificado em mercadoria e desejo de analista em estratégia comercial. A autonomia da psicanálise precisa caminhar com rigor, transmissão, responsabilidade ética e compromisso com o sujeito.
Dororidade nasce da insuficiência de uma sororidade que nem sempre alcançou a experiência das mulheres negras. O conceito evidencia a dor acrescentada pelo racismo e explicita o modo desigual como violência, invisibilidade e desproteção alcançam os corpos. Vilma Piedade não oferece à psicanálise uma ilustração social para conceitos europeus: ela produz uma categoria capaz de deslocar o feminismo, a clínica e o pensamento brasileiro.
Ao receber Dororidade, a psicanálise é convocada a revisar seus universais, interrogar sua branquitude institucional e reconhecer os territórios como produtores de teoria. Essa interlocução também exige respeito à autoria. Utilizar o conceito sem colocar Vilma no centro repetiria o gesto colonial de extrair saberes negros enquanto seus autores permanecem nas margens da cena institucional.
Freud pergunta quem pode exercer a psicanálise. Dororidade obriga a perguntar que dor essa psicanálise reconhece e quem possui autoridade para interpretá-la. A Jornada nasce nesse cruzamento. A resistência aos monopólios profissionais precisa encontrar a resistência aos monopólios epistemológicos. Uma psicanálise leiga que preserve hierarquias raciais de saber continuará distante da radicalidade que proclama. Uma clínica antirracista entregue ao mercado de diplomas perderá o rigor necessário à escuta.
Promover um encontro internacional, gratuito e interdisciplinar que articule o centenário de Por uma psicanálise leiga, o conceito de Dororidade e os desafios contemporâneos da formação e da clínica, reafirmando uma psicanálise rigorosa, antirracista, territorialmente implicada e resistente à mercantilização.
Debates sobre racismo, machismo, feminicídio, invisibilidade, memória e produção social do sofrimento.
O centenário freudiano, o desejo de analista, análise pessoal, estudo, supervisão e responsabilidade institucional.
Cursos rápidos, diplomas, plataformas, marketing do sofrimento, regulamentação e autonomia do campo psicanalítico.
A margem como lugar de teoria, clínica, formação, invenção política e produção de linguagem.
Experiências de escuta em escolas, coletivos, instituições culturais, movimentos sociais e dispositivos comunitários.
Classe, gratuidade, remuneração justa, clínicas sociais, acessibilidade e políticas de cuidado.
Homenagear Vilma Piedade significa reconhecer, em vida, uma intelectual negra brasileira que produziu uma palavra capaz de alterar o campo do pensamento feminista, político e clínico. Dororidade não funciona como metáfora para qualquer sofrimento. O conceito nasce da insuficiência de uma sororidade que, ao imaginar uma experiência feminina universal, deixou sem nome a dor que o racismo acrescenta à vida das mulheres negras. Vilma fez da língua um território de disputa e obrigou o pensamento brasileiro a reconhecer que a dor possui história, localização social, gênero e cor.
Sua homenagem dentro de uma Jornada psicanalítica produz um deslocamento radical. Afirma que mulheres negras elaboram conceitos com os quais a psicanálise precisa trabalhar; elas não comparecem para oferecer testemunhos de sofrimento a serem interpretados por uma autoridade branca. Colocar Vilma no centro da Jornada enfrenta o monopólio epistemológico que decide quem pode teorizar, quem será citado e quem permanecerá reduzido à condição de objeto clínico.
A homenagem constitui um ato intelectual e político, jamais um ornamento afetivo ao final do evento. A palavra de Vilma ocupa o centro da cerimônia. Mulheres negras protagonizam a conferência, a saudação e a interlocução com sua obra. A cerimônia reconhece autoria, trajetória, pensamento e presença.
Coerência ética
A gratuidade para o público não depende da exploração do trabalho intelectual da homenageada ou das pessoas convidadas. Combater a mercantilização da psicanálise também exige diferenciar acesso gratuito, remuneração justa e extração gratuita de saberes — sobretudo de mulheres negras.
A Jornada defende a autonomia da psicanálise diante dos monopólios profissionais sem banalizar a formação. Leiga não significa improvisada. Nenhum diploma isolado, nenhuma promessa publicitária e nenhuma sequência acelerada de aulas substituem a experiência da análise pessoal, o estudo persistente, a supervisão clínica, a inserção em laços de transmissão e a responsabilidade ética diante da transferência.
O enfrentamento à mercantilização também não significa negar a remuneração do trabalho clínico e intelectual. Mercantilizar é converter a formação em produto de consumo rápido, a certificação em promessa de autoridade, o analisando em cliente e a dor em oportunidade de negócio. Remunerar dignamente é reconhecer trabalho, tempo, saber e responsabilidade.
Posição da Jornada
Psicanálise leiga, sim. Formação improvisada, jamais. Acesso público, sim. Exploração do trabalho, jamais. A psicanálise não tem dono e a dor não pode ser transformada em mercadoria.
25, 26 e 27 de novembro — online
Programação inteiramente gratuita e transmitida pela internet, aberta a qualquer pessoa interessada, sem limite de vagas.
28 de novembro — presencial na ABI
O encerramento acontece na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio de Janeiro, das 10h às 13h. A participação é gratuita, mas depende de inscrição prévia e confirmação de vaga: o auditório comporta 100 pessoas. As inscrições serão anunciadas nesta página.
Os recursos de acessibilidade da Jornada — como interpretação em Libras, legendagem e descrição oral dos elementos visuais — serão anunciados aqui à medida que forem confirmados.
Corpos em Movimento 2026 é realizado pelo CPAPEC — Coletivo de Pesquisa Ativista em Psicanálise, Educação e Cultura e pela Escola Psicanalítica da Escuta Periphérica.

Doutorando e Mestre em Educação Contemporânea e Demandas Populares (PPGEduc/UFRRJ). Teólogo e pesquisador na interface entre Psicanálise e Feminismos Plurais — Estudos de Gênero no Laboratório de Educação, Gênero e Sexualidades da UFRRJ, no Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde da UNIR e no Diversitas (FFLCH/USP). Coordenador do CPAPEC, membro do Coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD) e da Comissão Permanente da Política Institucional pela Diversidade, Gênero, Etnia/Raça e Inclusão (CPID) da UFRRJ.

Doutorando em História (UERJ). Mestre e licenciado em História (UNIRIO). Pós-graduado em Psicanálise e Saúde (SEPAI-RJ), em Orientação, Supervisão e Gestão Escolar (UNINTER) e em Ciências da Religião (AVM/UCAM). Bacharel em Teologia (FACETEN). Psicanalista e pesquisador no Laboratório de Educação, Gênero e Sexualidade da UFRRJ, no Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde (UNIR) e no Grupo ÁFRICAS Sociedade, Política e Cultura (UERJ-UFRJ). Coordenador do CPAPEC.

Doutor em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela Universidade Veiga de Almeida (UVA). Mestre em Ciências em Engenharia Mecânica pela COPPE/UFRJ. Especialista em Clínica Psicanalítica pela Universidade Santa Úrsula (USU) e coordenador da Especialização em Teoria e Clínica Psicanalítica Freud-Lacaniana da USU (CEPCOP/USU). Psicanalista membro titular da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sándor Ferenczi (GBPSF). Coordenador do CPAPEC.
Deseja nos apoiar para levar eventos gratuitos para todxs?
Contribua em apoia.se/cpapecQue estes quatro dias façam da escuta um ato de responsabilidade com os corpos que a história ensinou o mundo a não ouvir. A dor tem cor. A psicanálise não tem dono.